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Quando voltaram do Centro com as trocas feitas, Manuel Boa Memória estava moribundo de sono. Por muito que quisesse ir para casa, o seu corpo falou mais alto e decidiu adiar o regresso a Buonipachem.

– Sugiro que durmamos na Caravela um pouco e só depois atravessemos o Muralha até ao Porto de Meduza, de onde partiremos para o Castelo a pé.

Eles concordaram, até porque estavam também de rastos. Já prestes a dormir Manuel foi confrontado com uma última questão:

– Porquê Fide?

– Depois de muito tempo à deriva no Oceano da Libertação diz-se que os primeiros a avistar a Ilha foram os nobres da família Fide quando já todos achavam que morreriam perdidos no mar e as famílias concordaram em chamar-lhe assim como forma de gratidão. Claro que os Nortenhos ficam todos fanfarrões por ser o nome da sua família Real, mas não me ralo com isso honestamente, gosto da minha Ilha e gosto do seu nome.

Estavam tão cansados que acordaram apenas ao fim da tarde. Estavam esfomeados e mais uma vez não resistiram em adiar o regresso a Buonipachem para ir comer algo à cidade de Galantis antes de partir. Enquanto caminhavam, Manuel aproveitou o silêncio para finalmente descobrir mais sobre a misteriosa personagem que havia encontrado no Mar.

– Suponho que o senhor venha de Absentia, certo?

– Sim – respondeu o Náufrago um pouco inseguro e apanhado desprevenido – Confesso que tive medo de que me quisessem matar por ser um estranho, mas agora que conheço a vossa história estou mais tranquilo. Estou grato por não guardarem ressentimentos do que os vossos antepassados sofreram.

– A revolução é coisa do passado, e além do mais, diz-se que os nossos antepassados deixaram bons e fiéis amigos em Absentia. Mas quem eras tu em Absentia? O que aconteceu lá desde que estamos cá? Não sabemos nada sobre lá desde que a Casa Boa Esperança desembarcou em Fide, já fazem mais de 400 anos.

– Bem, é difícil dizer assim tudo duma vez, mas infelizmente, pouco do que sabem mudou, os Tiranos continuam a suceder-se no poder, vive-se num clima de medo e terror constante e tudo é diferente daqui. Lá não se dá um passo sem que o equivalente aos vossos “Justiceiros” de cá saibam, é precisamente o clima de medo que sustenta o poder. É muito complicado e triste, custa-me muito falar.

– E o que é que se sabe daqui de Fide lá?

– Penso que a maioria dos habitantes lá não sabe sequer que existe aqui uma Ilha, eu por acaso já sabia. Mas mesmo os poucos que sabem e conhecem a história sabem pouco, sempre houve algumas desconfianças que a fuga dos jovens dessas tão influentes Casas na altura das perseguições pudesse ter sido para aqui, mas pensava-se que estas Ilhas aqui à volta fossem desertas e assumiu-se que, mesmo que as encontrassem, passado pouco tempo já estariam todos mortos. Acho que ninguém em Absentia tem sequer ideia de que os filhos desses jovens casais sobreviveram tempo suficiente para deixar descendência e muito menos que esses tais filhos tenham sobrevivido tempo suficiente para também eles deixarem descendência e ainda muito menos que se tenha tornado numa Ilha próspera dividida em quatro Reinos. Mesmo eu ainda não acredito bem no que estou a ver, nem na minha maior teoria da conspiração sonharia com isto.

– Então ninguém sonha da nossa existência? – indagou Manuel, surpreendido.

– Nem o mais otimista… Quando eu vi um Navio pensei que só pudesse ser de Absentia, mas estranhei a forma da Caravela, nunca tinha visto uma assim.

A Canção do Vento é única de facto, está na minha família já há muito tempo e continua a aventurar-se no Alto-Mar, está como nova! – gabou-se Manuel – E o que lhe aconteceu para vir parar aqui? 

– Digamos que o regime não me tinha em boa conta, eu fazia demasiadas perguntas, o que mostrava que pensava sobre as coisas. Os Tiranos odeiam pessoas que pensam sobre as coisas; os Tiranos só gostam de quem ouve e cumpre. Eu não tinha jeito para isso.

– Então o senhor foi exilado?

– Eles não são assim tão gentis nos dias que correm… Fui apanhado pelos guardas de lá a expor as minhas ideias a uns colegas meus, e assim que reparei que me estavam a observar, comecei a correr e escondi-me num abrigo que já conhecia. Se me tivessem apanhado ia para a prisão de certeza, e, quem sabe, de lá para a forca por ser reincidente. Fiquei no esconderijo por umas semanas, saía muito esporadicamente para procurar comida e planear a minha fuga para aqui. Decidi que preferia viver sozinho e livre que naquela enorme prisão. Paguei a um colega meu de confiança para preparar uma jangada e no resto da história vocês foram também protagonistas. Sei que pode parecer uma ideia desesperada e delirante, mas não fui o primeiro a tentar, sei de alguns amigos que foram tentando ao longo desta década. Dificilmente tiveram a mesma sorte que eu, mas não perco a esperança de, quem sabe, encontrá-los um dia por aqui. Apesar de ter enchido a jangada de mantimentos a viagem foi bem mais longa do que estava à espera, percebi logo de início que as correntes e os ventos não estavam a ser vantajosos e desviei-me muito do destino.

– Nós sabemos! Ó homem, você estava a umas quantas léguas do ponto mais a norte da Ilha! – interveio o calado Tagueu que, apesar de ouvir tudo atentamente, só abria a boca quando o assunto lhe dizia alguma coisa, isto é, quando se falava de Mar.

– Que história fascinante! – comentou Manuel sem grande convicção da sua veracidade – Penso que é digna de ser apresentada ao meu tio. Sabemos muito pouco sobre Absentia, é estranho ouvir de alguém que esteve lá em primeira mão. Ninguém aqui tem intenções de voltar, o nosso único medo é que eles venham para estragar a nossa Paz que nos tem permitido tanta prosperidade. Diria que é dos ativos mais valiosos que aqui temos. Peço-lhe portanto que se porventura voltar a pisar aquelas terras, mantenha o sigilo quanto à nossa existência – o Náufrago acenou com a cabeça com uma expressão séria no rosto – Entretanto já é tarde e não o vou incomodar com mais perguntas, talvez apenas com o seu nome.

– Joseph, o meu nome é Joseph.

– Muito bem senhor Joseph, quando chegarmos à Caravela posso tratar melhor de si. Penso que tenho umas roupas a mais que lhe posso ceder – concluiu por fim – Foi corajoso da sua parte lançar-se ao Mar, mas se não fôssemos nós, não teria muita sorte, tem de tentar ser mais ponderado nessas aventuras.

Quando finalmente chegaram de novo à Canção do Vento, Manuel cortou-lhe o cabelo e a barba. Foi buscar umas vestes que tinha no convés e Joseph ficou de facto consideravelmente mais apresentável. No caminho de regresso, Manuel e Tagueu ensinavam ao novo companheiro as lendas do Mar e os cantos dos marinheiros do Este. Joseph estava claramente impressionado com Fide, era como se tivesse feito uma descoberta incrível. Quando Manuel se fartou das cantorias atirou:

– E agora o que planeias fazer meu caro Joseph? 

– Irei ter com o teu Rei e logo vejo. Quem sabe ele até me deixe viver aqui…

– É bem mais provável que ele deixe do que o Norte ou o Oeste. Lá há um certo medo de tudo o que venha de Absentia, até quando o vento vem de noroeste eles acreditam que dá má sorte, mas depois nós os marinheiros é que somos os supersticiosos…

 

Apesar de haver uma intimidade em crescendo, Manuel continuava muito atento a Joseph. Ainda não tinha decidido se lhe inspirava confiança ou não. Perguntando discretamente a Tagueu o que achava ele limitou-se a encolher os ombros e a dizer que precisava de ver mais. “Mas que personagem esta…”

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